sábado, 23 de julho de 2016

Cheiro de núvem, leite e algodão

"Eu não sinto nada. Eu não consigo sentir nada", pensou consigo mesma pelo décimo grito de fervor dos que amam. E eles sempre vêm, os homens com as mãos sujas e os dedos calejados, que buscam pelas sensações indefiníveis e cheiros de núvem, leite, algodão, cigarros e gozo.
Mas ele, ele nunca vem. Ele, com seu aspecto limpo, hálito doce, cheiro de núvem, leite, algodão, cigarros e gozo. E então ressoam os resquícios de mim, ainda sozinha. Com meus lençóis mofados no varal, toalhas manchadas de menstruação e garrafas vazias de vinho tinto e champagne barato. Tão vazias quanto eu, tão vazias quanto ele, tão vazias quanto as palavras que foram ou não ditas. Talvez não importe mais.

Tudo. Desce. Pelo. Mesmo. Ralo. O mesmo gosto de sentimento razo, esse teu. O mesmo buquê de flores de pétalas vermelho-sangue e descaso. E ainda sim, eu me desfaço em mil pedaços, esperando que alguém os recolha, um por um. Sendo que Tudo. Desce. Pelo. Mesmo. Ralo.
E aqueles que fogem podem até mentir em nome da liberdade, mas jamais serão conhecedores do privilégio das despedidas.

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