domingo, 13 de novembro de 2016

libélulas mortas

eu tenho medo das mentiras bem contadas e das coisas ditas por dizer
fumo um, dois, cinco cigarros
o gosto de monóxido de carbono inunda a cabeça
tomo um, dois, cinco comprimidos
na esperança de que fôssemos mais um vislumbre
da realidade distorcida pelos olhares de pedra.

sumo dentre o povo, e o povo some de mim
enquanto o cenário empírico das tragédias cômicas
transborda pelas beiradas do que já foi úmido:
a sorte seria o pretexto das coisas mágicas.

já era ontem quando eu sufoquei
só de dilacerar o pouco que foi nosso
um livro vermelho
as xícaras de porcelana
e uma sensação maldita que não vai embora:
libélulas morrem na boca do meu estômago.

e no cenário desnudo
do sonho mais lúcido
nos fizeram desaguar de novo
pela cura daquilo que foi obtuso
e inundado na carne indiscreta.

as paredes do silêncio arredio
me mantiveram afogada no fel
da tempestade que calou as nossas bocas
submersas no cais de papel.

sábado, 23 de julho de 2016

Cheiro de núvem, leite e algodão

"Eu não sinto nada. Eu não consigo sentir nada", pensou consigo mesma pelo décimo grito de fervor dos que amam. E eles sempre vêm, os homens com as mãos sujas e os dedos calejados, que buscam pelas sensações indefiníveis e cheiros de núvem, leite, algodão, cigarros e gozo.
Mas ele, ele nunca vem. Ele, com seu aspecto limpo, hálito doce, cheiro de núvem, leite, algodão, cigarros e gozo. E então ressoam os resquícios de mim, ainda sozinha. Com meus lençóis mofados no varal, toalhas manchadas de menstruação e garrafas vazias de vinho tinto e champagne barato. Tão vazias quanto eu, tão vazias quanto ele, tão vazias quanto as palavras que foram ou não ditas. Talvez não importe mais.

Tudo. Desce. Pelo. Mesmo. Ralo. O mesmo gosto de sentimento razo, esse teu. O mesmo buquê de flores de pétalas vermelho-sangue e descaso. E ainda sim, eu me desfaço em mil pedaços, esperando que alguém os recolha, um por um. Sendo que Tudo. Desce. Pelo. Mesmo. Ralo.
E aqueles que fogem podem até mentir em nome da liberdade, mas jamais serão conhecedores do privilégio das despedidas.