sexta-feira, 24 de abril de 2015

acontecer. o. sol.

hoje eu abri meu porão
não tinha só sujeira, não:
tinha teia de aranha nos cantos
e os monstros todos no balcão.

abri uma gaveta e achei
lá dentro todo teu amor

(cuidei ao botar os pés no chão
pra não pisar no rancor)

e então, eu quis sair de lá
e os monstros foram me levar
pra cama, onde eu tive que ouvir
canções de ninar
feitas de silêncio

(pra esvaziar
a mente de tanto sonhar)

mas o dia ainda vai ser.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

cena II

se eu ainda fosse pequena
minha dor não caberia mais em mim.
não caberia na garganta
não caberia no peito
não caberia nos olhos
e vazaria todos os dias

(por horas a fio)

minha dor não caberia mais em mim.
não caberia nas horas
não cabeberia nos suspiros
e muito menos nos gritos de desespero

(sempre silenciados)

minha dor não caberia mais em mim
e por dentro já não sobraria mais espaço:
pra saber do perdão
e do amor
e da lucidez
e de todos os possíveis consolos.
minha dor não caberia mais em mim
e também não caberia a ninguém
tirá-la de mim:
somos uma só
a dor e eu
até que a morte nos separasse.