quinta-feira, 25 de setembro de 2014

cena I

um pensamento sobre alguma coisa
ecoando durante o sempre
(enquanto o amanhecer não se cansa)
porque pra hoje o que tem é saudade:
de saber sobre o que talvez
um dia
quem sabe
passaria pelos lados de cá.

peculiaridades, particularidades
e as partículas de luz
descansando sob a pele
num sobreposto de camadas:
o que era pra ter sido
o que até foi
e o que depois nunca mais.

(só pra eu não ficar raza de tanta razão
e morrer na crueza do que se entende por cíclico)

mas àqueles que ainda não souberam de mim,
ando sempre pelos meios:
entre o céu e o cheiro de terra molhada
entre o cigarro da boca e o abraço no choro
entre o resto dos cantos e beiradas
e o que ainda
um dia
quem sabe
ficou.

e o corpo,
cenário de mim,
imerso no tempo que me foi concedido
(por alguém que gostava de contar)
pelas horas de insistir que fui pêlo, dor
ritmo, medo
calor
silêncio
dos olhos atentos
e as mãos inquietas,
que é pra deixar pra trás
esse rastro da certeza
de que talvez
um dia
quem sabe.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Quando eu sou camaleoa

em cada uma das minhas frestas
um olhar teu que me espia
pra ver se lambi os beiços
do que eu deixei sobrar de ti.

porque já disse, não viro gente
e não há quem me vire,
e desvire do avesso
comece do começo.

dessa pele que eu visto,
já troquei tanto que insisto
aquilo que desbotou:
(amor, toca o tambor)
ardeu, ardor.

de todo gozo que aprendi a chorar,
amordacei o grito pelos rastros
assim que me foi dito o silêncio
pela língua dos grunhidos.

e isso tudo foi na outra pele tua,
que enchi o peito pra ir embora,
dando adeus, que sem demora
tenho hora pra voltar.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poema de Absolvição

O tempo que separa
esses dias de abismo
eu já não o conheço
eu já não os conheço

As horas se penduram umas nas outras,
os dias uns nos outros,
e os meus esforços hercúleos
são pra lembrar de um amontoado de coisas de ontem.

O tato que eu tinha
pra saber das verdades
não contou história desde que percebi
que conseguia dormir sem me contar mentiras.

Porque nas profundezas
de tudo o que faço existir,
eu sou o bicho que vem me pegar
quando escurece.

Porque quando sinto o monstro
escondido debaixo da minha cama,
eu nunca sei qual parte de mim tenta dormir
e qual parte se esconde.

E eu posso até ser assim,
ruim comigo mesma,
mas o mundo já me maltratou mais
e eu nem tive do que reclamar.

Se pensar fosse pedir comida
e lembrar fosse ganhar pão velho,
eu acho que passava fome
pelo resto da vida.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Quatro estrofes de laivo

Um gole de ti
me escorreu da boca,
até que eu me lambi das sobras
e me enfiei nos bolsos.

Da janela estilhacei o céu
pra esperar mais um pouco,
até que eu me atirasse do mundo
e me socorresse dos quartos.

Um desacostume de deixar pra depois
me foi concedido no silêncio
até que eu te disse, aos berros
algo sobre gaguejos.

Tenho um bocado de indícios
dentro de mim (agora sussurros, pretextos)
e acho que na ponta da língua
ficou o gosto do teu nome.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Dessarte

Eu tinha uma pergunta
pra te fazer.
Muita calma, companheiros,
porque difícil mesmo é quando eu tenho certezas.

Acho que escrevi num pergaminho,
pra colocar dentro da garrafa

"O mundo é feito de quartos,
e tu foi parar no meu
depois de quase uma vida
de discos tocados
me faz o favor de comer essa banana"

e se não me engano
até esvaziei a garrafa antes.

Quando deitei, e tu levantou
A bochecha dobrada, nem sei como tu fez
Parecia uma cara assim de gente velha
E eu, quase moça de família,
pensei que quis te ver envelhecido.

Mas aquilo que eu tinha dito,
pode colocar na minha lápide:
quando eu ainda te pergunto
é que vai ficar tudo bem.

Porque se subo pelas paredes
(as vezes parecem o muro de berlim)
não precisa nem se preocupar,
antes de chegar do outro lado
eu já escorri.