quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Um tanto quanto muito só

Num emaranhado de pernas
No qual perdi as minhas vontades
Uns quantos dias
E todas as noites,

Menti o segredo mais secreto
de tudo o que não se deve dizer,
assim, susurrado do vento,
um chiado que não sei se eu entendo.

Deu-se um sonho que eu já não sonhava mais, soprado
aos não sei quantos cantos,
porque é impossível que o mundo
tenha só quatro.

Sussurrei de volta,
"não sei se eu entendo",
e esqueci no silêncio
meu nome.

E me despi dessa pele,
já meio apodrecida
de tudo o que ninguém
conta pra gente.

Sobrou só eu, só.
Com a carne
que pendurada pelos ossos
doeu um tanto.

E eu até
fiz amizade com um cachorro,
mas meu melhor amigo
é o porteiro.

sábado, 2 de novembro de 2013

Uma barulheira nos ouvidos,
de tudo o que a gente não sabe sentir
mas diz, meio proclamado
que nem gente grande.

Também tem sentir e não dizer
como quem mastiga um monstro
Pra ver que o melhor
nem sempre é muito.

E ninguém disse nada,
mas nunca vai existir
grandeza maior
do que se achar pequeno.

Mesmo depois de aprender
que contar a mais linda das histórias
custa só duas palavras.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Uma dúzia de pontos de fuga

Eu me ajoelho no chão e lambo todos os meus leites derramados, até os que azedam. As vezes também tem uns que viram iogurte. As vezes eu coloco açúcar, que nem a minha vó faz no café da manhã. Isso que eu nunca acordo cedo. O outro nunca é saber se tenho mais um ou dois instantes, porque uma estante eu sei que tenho. Cheia de livros muito velhos, com histórias muito antigas dentro. Escritas por gente que demorou muito tempo pra ser levada a sério. Tempo suficiente pra morrer e nascer de novo.
Se eu nascesse depois de morta, não ia querer saber tudo o que aprendi antes de morrer. Imagina que coisa mais horrível, estar condenada a trocar de corpo depois de uma vida tentando se acostumar? Tá certo que carne é tudo igual, mas minha carne é minha e se tiver que apodrecer um dia, que eu não esteja lá pra ver. Acho que por isso que o mundo sempre foi desse jeito, e se numa linha de raciocínio seguida debaixo do chuveiro eu descobri um dos motivos do mundo ser do jeito que é, acho que alguém manda dizer pros filósofos que nele habitam que Não, não temos com o quê se preocupar.

sábado, 10 de agosto de 2013

Desapego

Tem uma parte de mim
que foi esquecida.
Um pouco porque o mundo não a queria,
um pouco porque eu nunca a quis.

Esqueci sem explicar muita coisa,
nem sentir muito.
Até porque nunca vi
inocência que avisa antes de ser perdida.

Meu cabelo só não cresceu mais
que a minha desconfiança na sorte.
Mas eu ainda arregalo os olhos pra falar do que não gosto,
e sempre sento quando vou chorar.

Ao dono dos meus poemas

Tu decora meus dilemas,
E sempre me convence a não dormir tarde
Porque sabe que o meu sono
Nunca me chamou muito a atenção.

Ainda bem que os dois
Dramatizam despedidas.
Ainda bem que as tuas falhas
Preenchem todas as minhas.

Sabe que a tua sensibilidade
É muito grande pra caber num poço?
Até quando quem espera sou eu.
Até quando quem se desespera sou eu.

De tempos de janelas, panquecas e despedidas dramáticas
Te dou duas coisas:
Um monte de amor,
E todos os meus poemas.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A vaidade dos meus males

Tem um buraco muito grande
Dentro de mim.
Ele serve pra guardar
Tudo o que é ruim.

A constatação
De todas as minhas análises psíquicas noturnas
É de que nesse meu buraco
Não cabe mais nada.

Eu até tenho cogitado a hora
De abrir um buraco
No buraco
E botar tudo pra fora.

Porque entre o vazio
E o preenchimento desgraçoso,
Eu sinceramente prefiro
O vazio.