domingo, 30 de dezembro de 2012

Ao pé da goela

Eu me mato, me mato quantas vezes forem necessárias, e a dor talvez eu invente, mas é de dor. Que soem os trompetes, pois tenho dois anúncios pra te fazer:

Anúncio I
Me estragaram faz tempo.
Anúncio II
Não sei me consertar, não quero que me ensinem e muito menos que o façam por mim.

A linha pela qual eu ando é muito larga, cabe nós dois e os fantasmas dos quais não desisti. Ainda bem que teus dentes mal são amarelos, e tuas palavras, muito brancas. Te devo não sei quantos cigarros e um monte de elogios, e se ficássemos quites, minhas dívidas com esse mundo ainda seriam muito altas. Esses são os anúncios que não precisei fazer.
O porém é que não sou de acreditar no que digo, pois te senti me desvendar e desvelar - tanto que a dor inventada passou e outra coisa que não conhecia nem dos pensamentos mais quiméricos, cujo nome ainda nem dei, foi descoberta. Não sei se é outra invenção, mas eu gosto.

As vontades que tenho:

De mostrar o que as minhas palavras não fazem.
De conhecer todos os teus esconderijos.
De beber da fonte cujos sonhos tu deixa afundar, e depois me afundar junto.

Acho que se eu te perguntasse Posso?, tu jamais diria À vontade, então só digo Amém com um sorriso desaforado. Assim eu até vivo, vivo quantas vezes forem necessárias, e a invenção talvez eu nem queira mais.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

De toda minha solidez

As minhas declarações são de quem tem na cabeça as lembranças dos outros, cujas tentativas sem préstimo algum de obter as próprias são constantes, e devo confessar, prejudiciais. Dessas tentativas se adona uma distração pura, muito de vez em quando forjada; A todos os outros condenados pela auto sabotagem, mando meus cumprimentos.
Se há algum arregalar de olhos e cair de queixos a serem proporcionados, entregarei-os de bandeja: Nesse meu corpo sem salvação dizem uns, ainda salvo dizem outros, - agora, digo eu -, só o que se encontra são pulmões ainda limpos, consciência ainda sã e uma fúria muito discreta, pois sei do que dou de comer aos arrependimentos e alego a pureza que ainda me resta.
Se do fato suculento de que as maiores culpas provém do desanúvio de perspectiva eu espremesse consolo, de nada me serviriam as lágrimas de vergonha enxutas com um fruto podre nas mãos.
Do fruto que colhi sei também que, diferente do bom que pode vir a apodrecer, o podre jamais virá a ser bom.

Talvez eu devesse parar de lidar com sementes.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Bordados e remendos

Ninguém avisa quando a gente espera por algo que nunca vem que Moça, esse algo nunca virá. Mas sempre dizem Daqui a pouco passa, É coisa da vida. Mal sabem que o algo era esse passar.
Perdôo a todos, pois sei que não há palavras comportadas que digam as verdades, e peço que também me perdoem, pois De onde é que já se viu querer verdade polida? Tenham piedade, eu me contorço de culpa. Me menti (dizem também que tudo que a gente sente tem que ser proporcional à nossa altura, e acho que não cresço mais), mas talvez nem precise ser um alienista que enlouqueceu (ou muito alto) pra entender do que não passa. E agora dessa minha culpa, o remorso nem as gavetas petrificadas, nem os cofres codificados cujas sete chaves eu dei pra ele conseguirão esconder. O vão que existia entre a gente se transformou em um alçapão, daqueles nos quais jacarés aguardam olhando pra cima, de boca aberta. E eu nem desconfiava. A certeza de lucidez era tão boa, pena que coisa da minha cabeça, tudo invenção. Talvez ele nem me quisesse mais, depois de tanto tempo esse que traz problemas de visão mas faz enxergar melhor (e inclusive, resolver tudo com hipermatropia é o conselho que eu queria que tivessem me dado). Foi com vergonha e medo por todas essas convenções sentimentais anteriores que invejei teus atos algébricos e me repugnei. Foi assim, depois de muitos alinhavos desmanchados, que de tanto ser a costureira das tuas feridas, abri todas as minhas.