domingo, 25 de dezembro de 2011

O caldo de dores precordiais

Eu senti das tuas mãos minha sede depois de tanto trapacear meus equilíbrios nessas noites espaçosas. Já os dias nascem uns por cima dos outros, e até sentar no porto pra olhar o movimento me induz à duvidosas expectativas. Teve uma vez que eu cheguei de manhãzinha, pra colocar os pés na água e pensar sobre os descompassos de todas as vezes em que eu declarei Sim, tudo bem, Não, não tem problema, Como é bom aqui, Não tem porquê tu ir pra casa agora que chegou a melhor parte, na qual eu te dou liberdade pra prejudicar nós dois se for embora.
Talvez eu também tenha esquecido de dizer isso, nem sei mais.
O céu se alaranjou e eu ainda pensando em como a gente conseguia fazer de vinte quatro horas trezentos e sessenta e seis dias (é que ficávamos acordados até mais tarde). Eu que nunca fui de me deixar levar assim, mesmo que só pela metade, na beira de águas profundas, balançando a perna pra sentir o perigo da tua ausência na ponta dos dedos, me privando dos meus próprios segredos e querendo que da minha sensatez tivesse sobrado consciência. Mas a tua presença era pior, que nem morrer afogada, só que devagarinho. Porque agora tu já sabia das minhas miudezas e ainda assim as considerava grandes de suportar. Uma só garganta engolindo a agonia de mil ânsias não era suficiente. Quando a gente é ansioso, a única solução é esperar que passe, ou a ansiedade ou um bergantim que leve minhas lamúrias e as dilua para que menos me pesem. Porém, suplico que não se derramem tudo de todas, que as águas manejem as gotas perdidas com desvelo e tragam o bergantim de volta pra me buscar, porque de primeira viagem eu não coube, E quem sabe velejar dentre meus choros descondensados não evite as náuseas da terra firme?
Se tem uma coisa que eu não gosto é de desperdiçar as minhas dores depois de suportáveis.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Epifanias de quando o miolo cresce demais

Uma vez era dia pleno e eu era uma andarilha desbravando a vida no apogeu de uma beleza desaforada. Essa beleza eu soube que existe então eu andava andava, e ela se escondia de mim cruel só porque eu lhe desejava pra mim mais que todo mundo. Assim eu procurava procurava, em cada detalhe dos tantos becos e ruas, e jamais imaginava o desastre que seria caso me perdesse. Pois bem, senhores, eu me perdi e hoje em dia já sou perdida há tempos, mas lembro que quando o ocorrido era recente eu ficava a me perguntar Mas onde foi que eu devia ter dobrado e não dobrei? Eu gosto daqui mas preciso ir pra casa agora, já ficou tarde e eu ainda nem sei o caminho de volta, não sei se esse tarde é remediável ou não, levo comigo objetos manipuladores: uma ampulheta um relógio meu coração; o primeiro e o segundo são mentirosos e o terceiro se recusa a aprender as horas.
Lembro também de ter conversado com um senhor de olhar que carrega o fim do mundo, cujas pálpebras pesavam mil elefantes e presumo que somente uma régua seria pouco para medir suas amarguras. Ele me disse uma vez Pra quê passar a vida procurando algo que a gente acha em qualquer lugar, minha filha? e eu pensando que ele não me entendia, segui em frente, ficando à me dar conta de forma que os pensamentos desgraçosos fervilhavam incessantes no miolo que crescia (as vezes até vazava) e não paravam mais.
No dia em que eu finalmente compreendi o senhor que queria muito saber o nome mas não sei, um rapaz me declarou Não me importa se és rainha ou fidalga, porque de tudo que nos rodeia, só o que pode nos pertencer é o amor - e eu me horrorizei. Queria sair correndo desvairada, mas apenas mantive sereno o rosto, e o respondi Nem mesmo o amor, moço. Aí foi quando eu percebi que não basta se sentir nas nuvens porque nuvens não sustentam nada, só fazem chover, que os caminhos de volta pra casa são quinhentos, que de nada adianta querer a beleza do mundo porque tudo no mundo é e sempre será, irrevogavelmente, somente de todos.

domingo, 22 de maio de 2011

Todo aprendizado humano é visceral

Eu acordo e penso que a gente nunca teve cabimento no mundo, apesar dele ser nosso. Olho pro sol se indo e lembro de como a nossa alma reinava quando entardecia - era o presente de um sol que deseja enfatizar um momento antes de partir, mas fracassa, visto que quando a gente percebia (eu não percebia) ele já tinha ido. Eu olho pra longe e vejo as terras distantes pelas quais passeávamos no meu pensamento. No momento em que minha visão se desfoca e eu me sinto noutro lugar, te peço perdão pelos dias felizes que não sinto tua falta. Pelas milhares de mesquinharias que me compõem, por te olhar e só ver doença, por reduzir teus ternos exageros de amor em insignificância cotidiana. Por achar que o nosso tempo - tempo é que nem água, sempre dissolvendo as coisas - era diferente do tempo dos outros, passava mais devagar. Eu jamais terei o luxo de silêncios agradáveis e a tranquilidade de não precisar recompensar o que fazem por mim, e esse foi o preço de te apedrejar e me apedrejar. Mas agora eu sei medir a preciosidade das indiferenças e que felicidade é quando meu corpo quer o mesmo que eu.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Eu e as palavras, entre

Eu costumo usar as palavras pra me ver por dentro: de vez em vez, quando me perco entre as mortes e os nascimentos do cotidiano e cambaleio entre mundos que não são meus. As palavras são o caminho dos piores e mais obscuros subterfúgios do meu ser. As vezes eu escrevo as coisas sem querer e tudo sai desconexo. As vezes eu escrevo tudo com tanta certeza que chego a duvidar. Mas, além de tudo, o que eu escrevo me faz sentir uma maravilhosa surpresa – como se todas essas palavras estivessem enjauladas dentro de mim e eu nem soubesse, até que um dia elas me sugam a energia e saem, prontas para se apresentar. Eu as sinto até os ossos e esse cortejo de dizeres parece jamais ter fim. Nos contemplamos e eu as reconheço de anos. Peço um forcejado perdão por tê-las trancado por tanto tempo, fazemos as pazes e nos esquecemos, saudosas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Conclusões de borboleta

I
Entre os pensamentos me pousa o fato de que a lei do encanto (cuja teoria diz que na vida a gente tem que se dar o luxo da descoberta todos os dias) jamais poderá ser burlada. Essas borboletas, que vagueiam entre os devaneios, são tão comoventes quanto insignificantes.
E como se dentre os meus vôos (as vezes eu também gosto de ser borboleta) existisse uma saleta de boas vindas à todas as sombras do abismo que é ser alma fora da lei, eu me sentei no sofá e fui me dissolvendo na infinita saudade de sofrer, que me convenceu a finalmente seguir as normas da alma e cumprir a natural automação de me torturar com atos e gestos estrangeiros – entendidos por mim como descoberta estragada (da qual estamos todos carecas de saber), pois até a descoberta apodrece.

II
Uma vez eu encontrei um adorável conforto: o colo daquele que se importou até quando não era essa a sua vontade. Mas, o meu descontrole era interior, e esse jamais pode ser domado. Sendo assim, o conforto já não se sente tão confortável em dar-se. E se a lei do encanto jamais poderá ser burlada, só o que sei é que além de ter a data de validade muito curta, a compaixão é a mais falsa das queridezas.