sábado, 29 de maio de 2010

Das anotações sobre amor

Um discreto e meigo suicídio cometo só de querer saber quantos são os fios do teu cabelo. Se teu olho é tão escuro e lacrimejante quanto o meu. Se o teu sorriso e olhar indiferentes que dizem mil palavras foram ditos pra mim. Se ainda teríamos dramas pra escrever quando nos separarmos, caso nos juntássemos. Se tu ainda seria bonito, quando velho e calvo (eu acredito que não). Se os verbos se permitiriam ser em outro tempo se não no presente quando nos tocássemos. Se ainda vou descobrir teu enigma. Se meu delírio por ti, que mudo, algum dia gritará incessante. Se essa coisa que temos é outra se não carnal (até porque, de quê mais somos nós afinal?). Se a tua timidez por dentro é tão grande quanto a minha por fora - que crescem ao contrário. Se o teu sígno combina com o meu, pois embora ambos não acreditemos em sígnos, é sempre bom saber em quê mais nós combinamos - se é que tem como haver mais.
Eu quero ouvir teus tinidos que de tão perto do meu ouvido parecem ter vindo de dentro. Quero que tu me ame mais por dentro do que demonstra por fora pra seguir tua tradição de ser enigma. Quero que tu use aquele teu quintal pra alguma coisa útil e tenha uma plantação de morangos - que tu cuida muito só pra eu comer da minha fruta preferida (que ainda por cima resultou do teu suor) toda manhã. Quero não precisar escrever quinhentas vezes na penúltima (pois a última já foi toda escrita) página do meu caderno de história e na palma da mão quando o papel não se encontra um mero "te amo", sinal de que penso em ti até na minha aula preferida. Não precisar me matar adocicada todas essas incontáveis vezes por um gozo de desespero só de ter de te esperar nessa noite de lua com gosto azedo (pensando em ti como se fosse minha vida - e caso ainda esteja se perguntando, sim, desejo tua morte, mas muito de leve). E tem mais: Não gosto quando tu olha pro sol e faz careta. A careta que tu faz é muito feia. Aliás, tu é tão feio quanto eu, mas não me importa, afinal, os dois sempre gostarão mais do escuro.
Nossa história, sem dúvidas, qualquer dia foi um dos mais belos romances.

6 comentários:

  1. Consigo valorizar um bom escrito de verdade, e sobre esse seu texto eu bato palmas de pé Louise, ficou muito bom mesmo... Expressou muito bem os sentimentos, foi muito vivido, consegui imaginar cada cena.
    Parabéns!
    =~~

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  2. És uma pequena Lispector...
    O amor inspira. Parabéns por amar, e, apesar da dor que sempre vem, ao menos uma coisa boa há, que são estas tuas palavras apaixonadas.
    =)

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  3. Ps: não acho que o amor só tenha isso de bom..rs

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  4. Aplausos eternos, ficou muito bom. Parabéns!

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  5. Eu te acho uma otima escritora, embora não mencione muito na IR. Sobre seu texto, só tenho a dizer que me surpreende, envolve e é muito agradavel de ler, posto que, nos da sensação de coragem pra amar mais uma vez e tentar viver todas essas coisas que você descreve.

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  6. passei aqui por acaso, e amei muito o texto, escreve muuuuuuito bem.

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