sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Versinhos de desgosto.

O céu que se ilumina com alguns raios,
As senhoras que se iluminam com algumas pérolas,
Não me chamam mais atenção.
O sol quase não nasce,
Quando eu fico a pensar,
Se devo rir ou chorar.
As flores não desabrocham,
Se o sol não nascer.
E se o vento não sussurra mais,
Não tem nada que eu possa fazer.
Os meus sapatinhos,
Ficaram com a sola desgastada.
A tinta que eu usava pra colorir,
Essas coisas da vida,
Acabou.
Como vou poder agora,
Pintar de rubro meu céu,
De verde meu chão,
E meus pecados de azul?
Ando racional demais.
Tenho tido a impressão,
De que tenho que consertar,
O que vem a me chatear.
Tenho tido vontade de queimar,
Essas palavrinhas simplórias que eu costumo rabiscar,
Desde que descobri que elas
Não me querem mais.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Gula

Era uma vez uma garotinha. Ela tinha fome de aventura e sede de inusitado. Sede de tristeza, fome de alegria. Gostava de momentos intensos.
Ela tem pensado nas coisas. Era uma viajante.
Queria um barco, uma vela, bússola e rumo. Correu atrás dessas coisas, e conseguiu todas elas. O que faria agora? Ela queria o mar. Tornou-se marinheira e dona dos mares. Conheceu figuras ilustres, e as devorou, junto com o mar.
Ela queria a terra! Um caminhão, libertinagem, charlatanismo uma jaqueta de couro. Andava pelos tempos, tentando achar seu rumo, desvendar seus segredos. Via as pessoas que passavam, de expressões simples às mais esquisitas do mundo. Tímidas, pensativas, tristes, exaustas, e até apaixonadas. Ela gostava das tristes, mas ainda não era uma sádica completa. Brigava com umas, ria com outras, se irritava fácil e agia como o animalzinho disfarçado que era. Tinha medo de si mesma e atropelava os ocorridos como um gigante descuidado esmagando tudo com um simples movimento tosco. Passava por abismos onde silhuetas perambulavam neutras moldando suas mágoas. Desistiu, a garotinha.
Foi pro ar. Pro mais forte e contagiante ar. Se deixou levar pelo ar.
Voava, reinando seu mundo que lá em baixo aguardava por explicações e histórias de suas aventuras. Ficava acima de todos, e via coisas que ninguém imaginava. Sorria, chorava... E cansava rápido das coisas. Lá de cima, então, comeu tudo. O mundo inteiro, essa gorda! E ainda tinha a jornada mórbida na memória. Essa garotinha, no mínimo, é uma narcisista muito da fajuta.

Renascer

Vi o dia escurecendo. Senti o vento frio levando meus cabelos e queria em seguida voar com ele, pintar as nuvens. Fugir da minha vida. Senti meus pés quebrarem as folhas secas do chão, vi algumas caírem, mansas e compreensivas pela chegada do outono. Cumprimentei o velhinho simpático e digno de dó que ia apressado, sorria amarelo e carregava o fim do mundo nos olhos. À minha espera estavam monstros enfermos necessitando arduamente de meus cuidados. Gemiam morrendo aos poucos e precisavam de uma alma jovem e ténue para lhes socorrer. Vi, então, essa alma que tristemente cheirava a remédio em silêncio, obrando o caos e as desavenças. Sofria de mutação conforme o desgaste emocional precisava de reparos. Previ que precisava ir embora e deixar minhas observações de lado. Andei em passos curtos e lentos pela minha escura estrada, sonhando com um abrigo que me desse conforto e quietude como licença para as recordações, o que não foi possível. Me sinto como uma daquelas folhas, e ingrata acho que também tenho que cair da minha árvore e nascer de novo.

Velhicidade

Eu nem penso mais nada desse mundo.
Eu que tenho meu mundo
Nem penso nada.
Os bêbados-zumbis matinais,
Nem me intrigam mais,
Eu que já fiquei bêbada de intriga
Quem diria!
O viver pela janela do quarto de tão ordinário
Me arrasta pra fora aflito, tímido
Essas doses de realidade,
Misturadas com as de imaginação,
Por todos esses dias de verdade
Me deixam surrada.
Eu que tento ser mil, verosímil
Que me bordo viril
Me levem já desse covil!
Minhas palavras fogem de mim.
Meu dizer se tornou arrastado.
Essa velhice do viver pela janela tem me afetado.
Garçon, outra dose de fantasia, por favor!

A Cineasta Falida

Hoje acordei e tive a sensação de que vivo num filme.
Projeto todas as minhas cenas genialmente imperfeitas e incrivelmente mirabolantes, então, na hora de gravar perco completamente meu charme e me tenho como diretora frustrada. Como uma Alice no país das ideias, as perdendo na dimensão criativa e paralela que deve se encontrar em alguma passagem secreta desse cenário imenso.
Não sou uma boa estrela de cinema; Não sei dispensar os escândalos interiores exageradamente mínimos e não públicos como também as fofocas perante minha não plausível e um tanto desagradável sinceridade impulsionada. É muito chato ser o centro de mim.
Quando faço minhas imagens de ação fico completamente apavorada, vacilante, e por algum milagre dos céus, destino ou qualquer outro mistério indiscutível, dá certo.
Pois é, sortuda pra uma errante.
Acho que por enquanto só aguento uma comédia romântica com meu príncipe imaginário que mais se parece com um boneco de pano vivo. Quando encontro tudo negativamente auspicioso toda aquela vitalidade derrete escorrendo pelos meus dedos, gelada. Logo, me encontro dissipada no chão.
Tenho dom pro drama. Pobre estrela de cinema.
Ainda bem que sou a diretora extremamente centrada e tenho tudo sob total controle. A atriz cai, eu a levanto e então seguimos nosso baile sem rodeios.
Hoje acordei e tive a sensação de que tudo é muito simples.

Terra suja

Viveremos uma vida de aventuras,
Quase como se fosse.
Caminharemos milhas em trilhas,
Passaremos por terras encantadas,
Sorriremos em desventuras,
Para sentir a brisa do mar.
Somos peixes fora da água,
Se contorcendo por sensações,
Sedentos por emoções.
Seu coração é como uma brasa,
E o meu, como uma rocha.
Tão frio, na sarjeta...
Ascenda-o por inteiro,
E feche a porta da saleta.
Meu pai tem uma arma,
Melhor você correr.
Vivemos em uma terra suja,
E somos aliados.
Quem somos nós?
Somos simpáticos para pessoas estranhas.

Tempo

Amanhã o tempo passa rápido. Enquanto ele não passa, aguardo, melancolicamente robótica, cogitando que talvez ele volte: Insolente, indolente. Paro e vejo que as mutações do dia-a-dia são notáveis e dissolvem tudo ao seu redor de tempo, em tempo. Me olho no espelho, e por trás daquela imagem não consigo tocar os mistérios do interior e muito menos achar definições no mínimo coerentes... Vejo uma pessoa qualquer tentando não se afogar nos seus problemas e que acaba criando mágoas invisíveis e quase inexistentes pelos mesmos. Há tantas coisas que as pessoas pensam saber quando, na obscura verdade, são inimagináveis: Um mundo paralelo. Precisamos encontrar um modo de viver da nossa essência, ser o que queremos e não o que as condições nos impõem sem que o tempo e a cobrança nos desgaste emocionalmente. Pedaços de vidro perseguem a todos pra nos provar que não somos mais os mesmos de antes. Almas sofrem baques e quebram, se esparramando em cacos pelo chão como os pedaços de vidro. Podemos por um impulso arrebatador rasgar nossos papéis (insignificantes), cordas vocais, fotos, quebrar tudo ao nosso redor e depois queimar, mas não as nossas memórias. Elas, só o tempo pode consumir sem dó nem piedade.
O tempo sempre acaba vencendo tudo e todos independente de caras feias ou sorridentes. Não entendo como podemos negar nossa própria natureza que tão empenhadamente adquirimos de um modo quase imperceptível. Depois de tantas situações difíceis, um caos condolente e frio toma conta de nós em momentos intensos da forma mais cruel possível sem que possamos controlar ou ter um medíocre paliativo. Talvez num surto instantâneo ou num grande despertar desejamos desesperadamente regredir para que não passemos da nossa cota.
Sigo concluindo, então, que o tempo sufoca e mata: Maldoso, transfigurante. Corroe e acaba com tudo e todos sem que possamos nos proteger com uma armadura, tijolos empilhados ou um cobertor.
O tempo levou o ontem apressado. Não vai esperar ninguém.