quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Passeios Tempestuosos

Eu tenho me agarrado nas memórias. Eu tento, em meio a uma dessas nostalgias (enriquecedoras) de colecionadora, renegar todas as outras que me fazem mal - mas é utópico e tem cheiro de chuva. Uma chuva que eu engulo até o fundo da minha alma pra nunca secar. Uma chuva da qual me faço todas as gotas. E assim eu me arrasto pelos subúrbios, me esfregando pelos muros e humedecendo as esquinas na procura incansável de qualquer coisa que seja mais bonita do que as outras que eu vi antes, e imaginando melodias que ficam a me miscigenar com o caos ensandecido, tornando-o, então, inerente. Tem dias que eu absorvo tudo, e tem dias que tudo me absorve.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bilhete de quando eu não quis fugir

Se a nitidez do teu sorriso me deixa cega,
então não me resta mais nada além de te querer.
Porque essa insatisfação sedada
não é pra sempre.
Quando tua carne, e a minha carne
é nossa
a vulnerabilidade de todo meu ser é incontestável.
Eu tenho um sussurro pra fazer no teu ouvido:
Todos os planos de fuga que já planejei,
agora, são descartáveis.
Todos os bilhetes que deixo,
seja debaixo da porta
em cima do travesseiro
nos meus olhos...
Eles são de quem fica.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O inventário da tristeza

A pobre tristeza morreu,
mas deixou a ansiedade
que incomoda no louvar da noite.
A charmosa tristeza morreu,
e nem tristes podemos ficar,
pois ela deixou o charme
para os olhos desavisados - diz o testamento -,
que contornam a imagem do envolvimento
desses poemas pensados.
Os que certa vez não foram escritos nem lembrados,
mas não deixaram de rimar.
A tristeza, por fim, escreveu:
Deixemos as lágrimas para as nuvens.
Então sobrou o vazio, que procura estar ocupado
completando a indecisão que é
o inventário da beleza.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De quando a chuva baila

Chego e sento no chão. Tu ainda não tirou os livros, caixas e enfeites de decoração de cima do sofá. Como se a gente não soubesse o porquê das coisas acontecerem, eu faço de conta que elas nem acontecem. Não sei se é tu que é avantajado por enfrentar a realidade ou eu por negá-la tão normalmente. Nos abraçamos, encabulados. Dou um sorrisinho e tento disfarçar minha inquietude. Tu retribui o mexer dos lábios e sei que pensa da mesma forma. Engraçada essa nossa mania de deixar pra falar depois, quando houver bruta urgência. Eu comento sobre o tempo bom – a chuva passeava dançando lá fora. Tu olha pra janela e diz, com receio:
- A gente se desencanta, né?
- Com o tempo, sim. A vida é real demais pra ser encantadora.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Céus

Queria eu morar no teu abraço, eternamente terno. Onde nada tem fim, onde brota a certeza de que tudo vai ficar bem na esperança da constelação do teu olho.
Eu vivo oscilando entre euforias brutas de felicidade e desespero, quase sempre na outra constelação (a de sempre, de todos). Nesse desespero de esperar que o próprio me consuma, porque assim eu durmo. Se não durmo, penso muito em virar o gênio dos milênios criando qualquer forma de reviver momentos, regredir no tempo, parar naquele pré-dor e danos (irreparáveis), onde ninguém sabia. Como não há possibilidade dessas, me resta saber do que existe.

As coisas que existem

morte
colossal sofrimento
ajoelhar-se na frente da cruz e implorar atenção
choro de raiva
falta de audição nos tais anjos
anjos castigados a troco de nada
olhar pro céu e só ver o céu

E agora ninguém mais ajuda a construir os meus sonhos, criar o melhor mundo do mundo, coisa que na minha cabeça se constrói com tijolos levados por dois. Mas eu não parei de sonhar, e inclusive, levo os tijolos de arrasto.

Os sonhos que ainda sonhei

que eu realmente soubesse das existências
que das mortes brotassem pássaros
que esses pássaros povoassem esse outro céu (o do teu olho)
que não houvessem castigos
e tu voltasse

Mas eu também sei que tudo acaba, e tenho medo de saber das coisas.

sábado, 29 de maio de 2010

Das anotações sobre amor

Um discreto e meigo suicídio cometo só de querer saber quantos são os fios do teu cabelo. Se teu olho é tão escuro e lacrimejante quanto o meu. Se o teu sorriso e olhar indiferentes que dizem mil palavras foram ditos pra mim. Se ainda teríamos dramas pra escrever quando nos separarmos, caso nos juntássemos. Se tu ainda seria bonito, quando velho e calvo (eu acredito que não). Se os verbos se permitiriam ser em outro tempo se não no presente quando nos tocássemos. Se ainda vou descobrir teu enigma. Se meu delírio por ti, que mudo, algum dia gritará incessante. Se essa coisa que temos é outra se não carnal (até porque, de quê mais somos nós afinal?). Se a tua timidez por dentro é tão grande quanto a minha por fora - que crescem ao contrário. Se o teu sígno combina com o meu, pois embora ambos não acreditemos em sígnos, é sempre bom saber em quê mais nós combinamos - se é que tem como haver mais.
Eu quero ouvir teus tinidos que de tão perto do meu ouvido parecem ter vindo de dentro. Quero que tu me ame mais por dentro do que demonstra por fora pra seguir tua tradição de ser enigma. Quero que tu use aquele teu quintal pra alguma coisa útil e tenha uma plantação de morangos - que tu cuida muito só pra eu comer da minha fruta preferida (que ainda por cima resultou do teu suor) toda manhã. Quero não precisar escrever quinhentas vezes na penúltima (pois a última já foi toda escrita) página do meu caderno de história e na palma da mão quando o papel não se encontra um mero "te amo", sinal de que penso em ti até na minha aula preferida. Não precisar me matar adocicada todas essas incontáveis vezes por um gozo de desespero só de ter de te esperar nessa noite de lua com gosto azedo (pensando em ti como se fosse minha vida - e caso ainda esteja se perguntando, sim, desejo tua morte, mas muito de leve). E tem mais: Não gosto quando tu olha pro sol e faz careta. A careta que tu faz é muito feia. Aliás, tu é tão feio quanto eu, mas não me importa, afinal, os dois sempre gostarão mais do escuro.
Nossa história, sem dúvidas, qualquer dia foi um dos mais belos romances.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Azulejos Portugueses

Os azulejos portugueses do banheiro se rachavam mais em cada batida de sua cabeça. Azuis marinhos, azuis suaves e amarelos solares se despedaçavam. O sangue no chão, visto por ela, era suco de morango derramado acidentalmente.
"Não, não é tão amargo", uivava por tranquilidade. O cheiro de doença tomava conta do recipiente, chegando até suas narinas e causando repulso. Náusea. Fartei-me! Dos "Vence na vida!" que dizem os desdentados. Desse probleminha de fim de mês que se resume a meter um pão na boca e um copo de água na garganta. Da minha hipocrisia. De todos eles, os da politicazinha imunda - Militantes da debilidade, manipulação e da mentira. Escravos do trânsito, moda, orgasmo fingido e felicidade comprada... Cheios de pulinhos, sorrisos que chegam a causar dores na mandíbula, gargalhadas falsas, gesticulações e bracejos efusivos, jantas de família e biquinhos fechados que se abrem ao citar desgraças alheias e piadas de mal gosto. Que mordam suas malditas línguas. Que derretam, escorram pelos ralos e se mesclem com o lixo que os mesmos jogaram - Pois, ainda ouvirão os sinos da discórdia e da verdade, que apesar de certos, perturbaram-me e a acordaram-me de meu lindo sonho juvenil. Raiva euforia histeria esgotamento. E os pedaços de azulejos portugueses na minha caixinha - agora nem tão secreta - de desventuras.

sábado, 24 de abril de 2010

Meiga Morte

Se arrastava balbuciante pela esquina, o bêbado inescrupuloso que pensava em sua mulher e filhos como seres que o atrapalhavam de viver. Tropeçava pela calçada mal feita, indo pro meio da rua uma vez ou outra na esperança de que um caminhão o esmagasse. Reclamando baixo da própria desgraça, numa dessas idas e vindas da calçada pra rua, tropeçou em um dos paralelepipedos - como se estivesse tropeçado no próprio coração -, caindo ao lado de um bueiro perto da calçada onde fatídicamente bateu sua cabeça, e onde seu cérebro despedaçou-se e espalhou-se pelo chão.
Das trevas, burlescamente surge um gato (desses que ficam a vagar pela noite) que inocente se aproximou da massa cinzenta, deu uma lambidinha curiosa e se foi embora.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Imaginário

Eu tinha um cachorrinho.
Ele era meu amigo.
Era muito bonito.
E, ainda por cima,
Não era gente.
Ele me acordava,
Me seguia enquanto eu andava.
Não me deixava dormir.
Mas ele morreu.
Desconfio de que nunca existiu.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O valor da dupla lápis papel.

Com o tempo descobri,
Que essas coisas que a gente quer alcançar,
Conseguir, fazer, se vangloriar,
São mesquinharias alucinantes.
Alucinantes, pejorativas, decepcionantes!
Esse pessimismo todo
Nada mais é
Do que a cruel verdade nua,
Que ninguém deve enxergar.
Só o que se tem de sincero e verdadeiro
São os papéis em branco em cima da mesa
Aguardando pela sinceridade
Do emocional abrupto escrito.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Versinhos de desgosto.

O céu que se ilumina com alguns raios,
As senhoras que se iluminam com algumas pérolas,
Não me chamam mais atenção.
O sol quase não nasce,
Quando eu fico a pensar,
Se devo rir ou chorar.
As flores não desabrocham,
Se o sol não nascer.
E se o vento não sussurra mais,
Não tem nada que eu possa fazer.
Os meus sapatinhos,
Ficaram com a sola desgastada.
A tinta que eu usava pra colorir,
Essas coisas da vida,
Acabou.
Como vou poder agora,
Pintar de rubro meu céu,
De verde meu chão,
E meus pecados de azul?
Ando racional demais.
Tenho tido a impressão,
De que tenho que consertar,
O que vem a me chatear.
Tenho tido vontade de queimar,
Essas palavrinhas simplórias que eu costumo rabiscar,
Desde que descobri que elas
Não me querem mais.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Gula

Era uma vez uma garotinha. Ela tinha fome de aventura e sede de inusitado. Sede de tristeza, fome de alegria. Gostava de momentos intensos.
Ela tem pensado nas coisas. Era uma viajante.
Queria um barco, uma vela, bússola e rumo. Correu atrás dessas coisas, e conseguiu todas elas. O que faria agora? Ela queria o mar. Tornou-se marinheira e dona dos mares. Conheceu figuras ilustres, e as devorou, junto com o mar.
Ela queria a terra! Um caminhão, libertinagem, charlatanismo uma jaqueta de couro. Andava pelos tempos, tentando achar seu rumo, desvendar seus segredos. Via as pessoas que passavam, de expressões simples às mais esquisitas do mundo. Tímidas, pensativas, tristes, exaustas, e até apaixonadas. Ela gostava das tristes, mas ainda não era uma sádica completa. Brigava com umas, ria com outras, se irritava fácil e agia como o animalzinho disfarçado que era. Tinha medo de si mesma e atropelava os ocorridos como um gigante descuidado esmagando tudo com um simples movimento tosco. Passava por abismos onde silhuetas perambulavam neutras moldando suas mágoas. Desistiu, a garotinha.
Foi pro ar. Pro mais forte e contagiante ar. Se deixou levar pelo ar.
Voava, reinando seu mundo que lá em baixo aguardava por explicações e histórias de suas aventuras. Ficava acima de todos, e via coisas que ninguém imaginava. Sorria, chorava... E cansava rápido das coisas. Lá de cima, então, comeu tudo. O mundo inteiro, essa gorda! E ainda tinha a jornada mórbida na memória. Essa garotinha, no mínimo, é uma narcisista muito da fajuta.

Renascer

Vi o dia escurecendo. Senti o vento frio levando meus cabelos e queria em seguida voar com ele, pintar as nuvens. Fugir da minha vida. Senti meus pés quebrarem as folhas secas do chão, vi algumas caírem, mansas e compreensivas pela chegada do outono. Cumprimentei o velhinho simpático e digno de dó que ia apressado, sorria amarelo e carregava o fim do mundo nos olhos. À minha espera estavam monstros enfermos necessitando arduamente de meus cuidados. Gemiam morrendo aos poucos e precisavam de uma alma jovem e ténue para lhes socorrer. Vi, então, essa alma que tristemente cheirava a remédio em silêncio, obrando o caos e as desavenças. Sofria de mutação conforme o desgaste emocional precisava de reparos. Previ que precisava ir embora e deixar minhas observações de lado. Andei em passos curtos e lentos pela minha escura estrada, sonhando com um abrigo que me desse conforto e quietude como licença para as recordações, o que não foi possível. Me sinto como uma daquelas folhas, e ingrata acho que também tenho que cair da minha árvore e nascer de novo.

Velhicidade

Eu nem penso mais nada desse mundo.
Eu que tenho meu mundo
Nem penso nada.
Os bêbados-zumbis matinais,
Nem me intrigam mais,
Eu que já fiquei bêbada de intriga
Quem diria!
O viver pela janela do quarto de tão ordinário
Me arrasta pra fora aflito, tímido
Essas doses de realidade,
Misturadas com as de imaginação,
Por todos esses dias de verdade
Me deixam surrada.
Eu que tento ser mil, verosímil
Que me bordo viril
Me levem já desse covil!
Minhas palavras fogem de mim.
Meu dizer se tornou arrastado.
Essa velhice do viver pela janela tem me afetado.
Garçon, outra dose de fantasia, por favor!

A Cineasta Falida

Hoje acordei e tive a sensação de que vivo num filme.
Projeto todas as minhas cenas genialmente imperfeitas e incrivelmente mirabolantes, então, na hora de gravar perco completamente meu charme e me tenho como diretora frustrada. Como uma Alice no país das ideias, as perdendo na dimensão criativa e paralela que deve se encontrar em alguma passagem secreta desse cenário imenso.
Não sou uma boa estrela de cinema; Não sei dispensar os escândalos interiores exageradamente mínimos e não públicos como também as fofocas perante minha não plausível e um tanto desagradável sinceridade impulsionada. É muito chato ser o centro de mim.
Quando faço minhas imagens de ação fico completamente apavorada, vacilante, e por algum milagre dos céus, destino ou qualquer outro mistério indiscutível, dá certo.
Pois é, sortuda pra uma errante.
Acho que por enquanto só aguento uma comédia romântica com meu príncipe imaginário que mais se parece com um boneco de pano vivo. Quando encontro tudo negativamente auspicioso toda aquela vitalidade derrete escorrendo pelos meus dedos, gelada. Logo, me encontro dissipada no chão.
Tenho dom pro drama. Pobre estrela de cinema.
Ainda bem que sou a diretora extremamente centrada e tenho tudo sob total controle. A atriz cai, eu a levanto e então seguimos nosso baile sem rodeios.
Hoje acordei e tive a sensação de que tudo é muito simples.

Terra suja

Viveremos uma vida de aventuras,
Quase como se fosse.
Caminharemos milhas em trilhas,
Passaremos por terras encantadas,
Sorriremos em desventuras,
Para sentir a brisa do mar.
Somos peixes fora da água,
Se contorcendo por sensações,
Sedentos por emoções.
Seu coração é como uma brasa,
E o meu, como uma rocha.
Tão frio, na sarjeta...
Ascenda-o por inteiro,
E feche a porta da saleta.
Meu pai tem uma arma,
Melhor você correr.
Vivemos em uma terra suja,
E somos aliados.
Quem somos nós?
Somos simpáticos para pessoas estranhas.

Tempo

Amanhã o tempo passa rápido. Enquanto ele não passa, aguardo, melancolicamente robótica, cogitando que talvez ele volte: Insolente, indolente. Paro e vejo que as mutações do dia-a-dia são notáveis e dissolvem tudo ao seu redor de tempo, em tempo. Me olho no espelho, e por trás daquela imagem não consigo tocar os mistérios do interior e muito menos achar definições no mínimo coerentes... Vejo uma pessoa qualquer tentando não se afogar nos seus problemas e que acaba criando mágoas invisíveis e quase inexistentes pelos mesmos. Há tantas coisas que as pessoas pensam saber quando, na obscura verdade, são inimagináveis: Um mundo paralelo. Precisamos encontrar um modo de viver da nossa essência, ser o que queremos e não o que as condições nos impõem sem que o tempo e a cobrança nos desgaste emocionalmente. Pedaços de vidro perseguem a todos pra nos provar que não somos mais os mesmos de antes. Almas sofrem baques e quebram, se esparramando em cacos pelo chão como os pedaços de vidro. Podemos por um impulso arrebatador rasgar nossos papéis (insignificantes), cordas vocais, fotos, quebrar tudo ao nosso redor e depois queimar, mas não as nossas memórias. Elas, só o tempo pode consumir sem dó nem piedade.
O tempo sempre acaba vencendo tudo e todos independente de caras feias ou sorridentes. Não entendo como podemos negar nossa própria natureza que tão empenhadamente adquirimos de um modo quase imperceptível. Depois de tantas situações difíceis, um caos condolente e frio toma conta de nós em momentos intensos da forma mais cruel possível sem que possamos controlar ou ter um medíocre paliativo. Talvez num surto instantâneo ou num grande despertar desejamos desesperadamente regredir para que não passemos da nossa cota.
Sigo concluindo, então, que o tempo sufoca e mata: Maldoso, transfigurante. Corroe e acaba com tudo e todos sem que possamos nos proteger com uma armadura, tijolos empilhados ou um cobertor.
O tempo levou o ontem apressado. Não vai esperar ninguém.